O LADO POSITIVO DA PANDEMIA #5 - Desapego
Muito se diz, muito se escreve, mas nem sempre a mensagem chega a quem a lê...
Hoje vamos tentar inverter esse cenário 😊
O apego é algo que contribui, desmedidamente, para o surgimento da ansiedade. Quando temos apego a algo, ou a alguém, a nossa energia é direccionada na direcção do objecto de apego (seja ele uma coisa ou uma pessoa). O apego gera, desta forma, uma dependência da pessoa, do bem material, do sentimento ou da substância.
A única forma que temos de dissolver o apego, de forma realista, é olharmos para dentro de nós próprios. Não ter apego, não significa que não nos importamos, que não ligamos, que não nos diz nada! Isso é, simplesmente, não querer saber (em pouco se relaciona com o desapego).
O desapego implica uma libertação de todo o tipo de sentimentos, de emoções negativas. O desapego implica a nutrição de sentimentos positivos, a nutrição da paz, a nutrição do amor.
Então, ao afastar-me das pessoas, das situações, das coisas, estou de facto a desapegar-me?
Na realidade não! Ao afastar-me estou a escolher ignorar, e não desapegar. O verdadeiro desapego implica que tudo o que possa surgir em torno da pessoa, coisa, ou situação, não me afecta negativamente. Isso sim, é o verdadeiro desapego!
Quando temos apego a determinada coisa, pessoa, situação, temos uma tendência gigante de "esperar que algo seja de determinada forma", é aí que começa o sofrimento, pois o ter "expectativas" que nos transcendem, é a mais absoluta ilusão de "recompensa", de "resposta". Este caminho conduz-nos à decepção, de forma inevitável, pois dificilmente, tudo correrá da forma que a nossa mente idealizou.
O apego está directamente relacionado com a necessidade de controlo, e também, com a preocupação. Como a vida de todos nós (na nossa individualidade) e no cenário actual (em que todos vivemos) nos mostrou, nada está de facto, sob o nosso controlo. A única coisa sobre a qual podemos, e efectivamente devemos, ter controlo, é sobre a nossa própria mente. A nossa fábrica mental, essa sim, deve ser controlada, caso contrário, inevitavelmente, ela irá exercer controlo sobre nós.
Quando alcançamos a plenitude da nossa mente, não teremos desejos egoístas. Considero que este deve ser o nosso barómetro, ao nível da consciencialização da nossa própria capacidade de apego vs desapego.
Vejamos:
Quando uma pessoa sente apego por outra, a sua necessidade de segurança está a ser, totalmente colocada no outro, ou seja, está dependente do comportamento de uma pessoa que não o próprio. Logo, será um factor de decepção, quando as coisas não correm como a mente do apegado idealizou. Esta situação é frequente em relações familiares (principalmente em relações directas pai-filha(o); filha(o)-pai; mãe-filha(o); filha(o)-mãe) e em relacionamentos amorosos.
Quando sentimos apego por alguém, até "sonhamos" com as coisas que, na nossa mente, podem, eventualmente acontecer. Quando estamos apegados, dificilmente respeitamos a liberdade do outro, pois queremos manter a pessoa junto de nós, porque achamos que "gostamos" do outro. Na realidade, a verdadeira essência do amor, assenta na capacidade de dar liberdade ao outro. Devemos apenas, e exclusivamente, "querer" alguém ao nosso lado, se de forma livre, essa pessoa o quiser fazer, isso sim, é amar verdadeiramente. O amor não implica ciúme, não implica apego, não implica castração.
O desapego, é permitir que cada pessoa possa ter a sua capacidade de escolha, sem que isto, gere em nós qualquer tipo de sentimento negativo (salvaguardando, naturalmente, situações que possam resultar de um prejuízo do bem-estar do outro). No que diz respeito a bens materiais, se analisarmos bem, é algo que apenas necessitamos enquanto andamos neste plano, ou seja, no fundo, nada é verdadeiramente nosso, nenhum bem material nos pertence, nenhum relacionamento nos pertence, e mesmo nenhuma emoção nos pertence.
A respeito das emoções, podemos facilmente deixar de associar as mesmas, a quem somos. Naturalmente que o passado nos trouxe valiosos ensinamentos, e contribuíram para o ser que somos no dia de hoje. No entanto, o apego às lembranças (e consequentes emoções associadas) permanecem durante anos, pois temos a tendência a olhar para o passado (seja para coisas negativas ou positivas) e de forma, quase nostálgica, nos perdermos, por momentos, naquela imagem, naquele sentimento. Ao trabalharmos o desapego do nosso passado, libertarmos o nosso presente, e podemos, de facto, construir um futuro bem mais positivo, do que as experiências do passado. É uma escolha, sim é, e posso adiantar que não é nada fácil, porém, a liberdade que te dá é imensa, a mochila de tijolos que tiras das tuas costas, dá-te a sensação de teres pousado, metade do peso do mundo.
Quando começas a trabalhar o desapego, vais, rapidamente descobrir que existem uma enorme quantidade de pessoas, coisas, situações, acções às quais te sentes apegado. Quando achares que não estás apegado a nada, certamente, surgirá algo na tua vida que te vai mostrar o contrário, pois o trabalho é constante, e acredita, existe muita coisa, a ser trabalhada.
Outro exemplo, que me ocorreu agora, foi as amizades. Por vezes, tomamos decisões, que os nossos amigos não aprovam, e ficam, inclusive, chateados com a decisão que nós tomámos nas nossas vidas. O apego, pode ser, muito facilmente medido a este nível também.
Que direito tenho eu de ficar zangado com uma pessoa, que fez a sua escolha, na sua vida (que só ao próprio deveria dizer respeito), de acordo com a sua forma de sentir e necessidade interior? Que direito tenho eu, de conduzir a pessoa a fazer determinada coisa, porque é o que "considero ser melhor para ela"?
Como amiga(o) posso sentir de forma diferente, achar até, que não é a melhor opção para a pessoa e partilhar o que penso sobre determinado tema. No entanto,isso nunca, nunca, me confere o direito de ficar zangado com uma escolha que é do outro.
O amor aceita a liberdade do outro, o apego reage, cobra, exige!
Assim, quanto maior for o desapego, maior é a capacidade de amar e consequentemente a capacidade de compreender, de aceitar.
Desapegar significa, deixar fluir o rio da vida que nunca pára! Para estares desapegado tens de "deixar-te ir" mas, não deves, no entanto, deixar de assumir as tuas próprias responsabilidades, sejam estas para com os teus amigos, familiares, companheiro(a), sejam para com a sociedade.
Desapegar é ter a capacidade de confiar em "algo" ou seja, de ter "fé". Esta "fé" não precisa de ser numa crença específica. Pode ser, simplesmente, a fé de que tudo vai ficar bem. Esta fé, não direccionada, nasce, exactamente, do desapego. Através do desapego somos capazes de nos conhecer verdadeiramente pois, o desapego implica, também, uma libertação de tudo o que são pré-concepções ideológicas, pois apenas, através deste desprendimento, conseguimos, ver, sentir, saborear a vida, de outra forma.
Amadurecimento é desapego. É preciso desapego para que a vida flua, para que cumpra o seu propósito. Observemos um morangueiro, por exemplo. Enquanto o fruto ainda está verde, permanece agarrado à planta, no entanto, quando amadurece, a fase do desprendimento surge. Assim como a fruta amadurece e se desprende. Nós, humanos, para conseguirmos, verdadeiramente amadurecer, necessitamos de desapegar.
O trabalho do desapego é imenso, e estamos no exacto momento para o começarmos, ou, continuarmos a trabalhar.
💜
Petra Silva (Mytic Soul)

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