O LADO POSITIVO DA PANDEMIA #7- Sejamos Gratos

Ser grato é algo que nos devia ser incutido desde o nascimento, porém, nem sempre é assim. Naturalmente, temos tendência a sermos egoístas, a pensar em excesso no nosso umbigo, a olhar exclusivamente para a nossa situação, a procurar justificações para que a nossa situação, seja sempre pior do que a do vizinho. 

Atravessamos um tempo em que muitos de nós estão, infelizmente, no limiar da sobrevivência. Muitos de nós não estão na rua porque existe uma família que nos segura. Muitos de nós temos comida na mesa pela partilha daqueles que podem, um pouco mais do que nós, e não se importam de dividir o que têm.

Tenho ouvido algumas queixas, daqueles que continuam a trabalhar. Muitos em regime de trabalho remoto, outros tantos, devido à natureza das profissões, a terem de estar no terreno pois as tarefas, não podem ser desempenhadas à distância.

Malta que tem trabalho, sejam gratos... 

Vejam o quão pior poderiam estar se não o tivessem. Sejam gratos pela possibilidade de terem um rendimento. Muitos de nós não têm neste momento, onde ir buscar rendimentos e nem todos, podemos contar com o apoio do estado, por isso, sejam gratos. 

Aos que estão em regime de trabalho remoto, sejam ainda mais gratos. Ao estarem protegidos, evitam dificuldades maiores e conseguem, a partir do conforto do vosso lar, garantir o sustento, que nesta fase se tornou, o ouro, que todos procuramos. Por isso, sejam gratos.

Aos que estão no terreno, há um risco maior, é bem certo, mas o ordenado está garantido, por isso, reclamem menos, agradeçam mais, muitos de nós gostariam de ter a possibilidade de estar no vosso lugar, mesmo considerando o risco. E o risco, é para ambos os lados. Quem está no terreno, todos os dias, arrisca-se a ficar infectado. Quem está em casa sem rendimentos, corre o risco de ficar sem alimento. Todos corremos riscos neste momento, mais do que o normal, pois viver é por si só um risco. 😉  

O estado está a conferir alguns apoios, é certo, no entanto, nem todos temos direitos a esses apoios. Uns por "erro" do estado, outros por "erro" da burocracia outros ainda, pela sua própria responsabilidade, pelas decisões que fizeram no passado, e que hoje, com pouco ou mesmo nada, podem contar. Os empresários não são todos ricos, os profissionais independentes ainda menos. Nem todos os empresários conseguem garantir os seus direitos (enquanto trabalhadores) pois existe um "preconceito" de quem tem uma "porta aberta" tem os bolsos cheios, mas, nem sempre assim o é. Um trabalhador independente, que tenha tido o "azar" de ficar doente, e por isso, não tenha auferido rendimentos, também não tem direito. Assim, os subsídios vão auxiliar alguns (e ainda bem que assim o é) mas não são para todos, por isso, sejamos gratos, por tudo o que temos nas nossas vidas, independentemente dos desafios que cada um de nós enfrenta, a cada dia.

Sejamos gratos pelo que conseguimos alcançar nesta fase, pelas pequenas metas, pelos pequenos sucessos.

Sejamos gratos pela vida, pela água que jorra das torneiras, pelo alimento em cima das mesas. 

Sejamos gratos pelo tecto que nos cobre a cabeça, pelo carro (por muito velho que seja) que nos permite ir às compras, aliviando o peso das mesmas, sobre as nossas costas. 

Sejamos gratos por termos comunicações, que nos permitem, mesmo que de uma forma distante, contactar com aqueles que amamos. As gerações antes de nós, perante situações de guerra (seja esta feita entre nações ou entre organismos - doenças), não tinham como comunicar, nós temos essa facilidade. Não substitui o contacto humano (e foi necessário esta situação para entendermos isso) 😦. Porém, encurta a distância que todos estamos a sentir, daqueles que amamos, e com quem não podemos estar.

Sejamos gratos pela possibilidade de estarmos, finalmente, mais disponíveis para tudo o que não se baseia, exclusivamente, em garantir o pagamento das contas. Finalmente temos tempo para olhar para o nosso interior. A "preocupação" financeira é uma constante para quase todos nós. Os tempos são complicados (dizer o contrário seria apenas "dourar a pílula") no entanto, não nos podemos, de todo, focar exclusivamente nessa situação, aliás, o nosso foco, deve ser exactamente, ultrapassar essa situação. Para isso, temos de focar na solução e não no problema 😉. Temos de ter a capacidade de nos ajustarmos, de nos ultrapassarmos, de descobrirmos os nossos verdadeiros potenciais. A hora chegou, a escolha, depende de nós. 

Sejamos gratos pelos profissionais (de todas as áreas) que não param!

Graças aos profissionais de saúde (que tudo têm dado pela sua missão) temos conseguido garantir a prestação da maioria dos cuidados de saúde urgentes. Os que estão no terreno são poucos, para o que aí está, e também para o que está para chegar, porém, não desistem. Ao pessoal que faz a limpeza em meio hospitalar, às auxiliares de Geriatria que estão nos lares, alguns em completo desespero, mas que não abandonam a sua função, independentemente das adversidades. Médicos, enfermeiros, técnicos auxiliares de saúde, pessoal administrativo, técnicos de análises clínicas, farmacêuticos continuam, por eles e por nós, todos os dias, a garantir o serviço que todos podemos, vir a necessitar.

Os profissionais da construção civil e obras públicas, têm um impacto económico imenso no país e por isso continuam todos os dias, a garantir que a economia não se afunda, mais do que já está. Se este sector tiver de parar, param todas as empresas que produzem os materiais (cimento, aço, vidro, plástico, tintas, portas, janelas, cabos). Como efeito colateral temos a arquitectura, engenharia, transportes, serviços de abastecimento energético, seguros, serviços jurídicos, etc. É de extrema importância económica para grande parte dos países que estes profissionais continuem, a laborar diariamente, evitando o colapso económico total.  

Os trabalhadores das câmaras municipais, que fazem a limpeza das ruas, a recolha do lixo, o tratamento dos esgotos, são absolutamente essenciais à manutenção das condições de higiene. Como bem sabemos, higiene e saúde, andam de mãos dadas. Assim, estes profissionais são de extrema importância, tanto para a contenção da situação pandémica actual, como para a garantia de que outros microorganismos e doenças associadas, não sejam propagadas de forma massiva. Estes trabalhadores estão expostos às mais diversas situações pois lidam com todo o tipo de desperdícios e coisas "loucas" que se possa imaginar existir num caixote...

Os camionistas que correm os países, levando os alimentos necessários, de um lado para o outro, garantindo que chegam ao seu destino. Por essa Europa fora, contrastam com diferentes realidades, com diferentes riscos e continuam a trabalhar. Se pararem, são cortados os abastecimentos alimentares, começa a haver escassez a um nível que não estamos habituados, vai haver fome, vai haver muita miséria. Por isso, eles não podem parar.

Os empregados das superfícies comerciais, que repõem os stocks nas prateleiras, que garantem o funcionamento de um espaço, onde conseguimos adquirir o necessário à nossa sobrevivência. Estamos demasiado embrenhados numa sociedade onde tudo se vende nas prateleiras. A maioria de nós não sabe, como se pode viver de outra forma, pois fomos gerados e influenciados pela forma como a sociedade trabalha, e nesse aspecto, somos muito pouco, auto suficientes. Por isso, estes, também não podem parar.

Os polícias que andam nas ruas. Os profissionais que continuam a ser chamados para as mais diversas situações, e que têm de vir, independentemente da ocorrência, muitas vezes sem qualquer protecção, estando expostos a tudo. Os bombeiros, que também atravessam uma fase delicada no que diz respeito à sua própria segurança, aos recursos humanos (tal como a polícia), ao material de protecção individual, e mesmo assim, não param.

Todos estes profissionais (e provavelmente outros, que não referenciei) são essenciais ao funcionamento das coisas que um dia demos, por garantidas. Hoje, estamos mais capazes de reconhecer a importância destes trabalhadores, destas profissões. Hoje estamos mais capazes de sermos gratos por existirem seres humanos que estão, neste momento, a desempenhar o seu papel que se traduz, directamente, numa contribuição do nosso bem-estar. 

Quero crer que grande parte destes profissionais tem uma visão bastante altruísta do trabalho que desempenha, mas mesmo que assim não seja, é necessário estarmos gratos, os que trabalham por terem sustento e os que estão em casa e percebem que os que trabalham são essenciais para diminuir os nossos desafios tanto individuais, como colectivos. São pais, mães, filhas, filhos. Têm famílias, pessoas que amam, que não podem abraçar, beijar, estar, pois o risco de contaminação é maior e o medo, cresce e ao crescer, inevitavelmente, a distância aumenta. Muitos enfrentam batalhas emocionais gigantes, pois nem aquilo que o dinheiro não compra, é nesta altura possível. 

Ser grato, é mais do que um sentimento. É e tem de ser, uma forma de estar na vida:

Como podemos expressar a nossa gratidão (sem beijos nem abraços, pois agora, não se pode) 😉

  • A trazer apenas, os recursos que necessitamos. Actualmente todos necessitamos dos bens essenciais, por isso, devemos pensar também, naqueles, que tal como nós, precisam dos mesmos mantimentos. 
  • Confeccionar os alimentos de forma a rentabiliza-los. O desperdício alimentar é algo que jamais deveria existir, no entanto, neste momento, mais facilmente conseguimos entender a verdadeira importância dos recursos. A ideia da "fome em África" é uma ideia distante, para a qual, infelizmente, a maioria de nós "está-se nas tintas", porém a fome, pode estar mais perto do que achávamos possível, por isso agora, é mais fácil que todos vejamos o quão essencial é, respeitar a dádiva do alimento. 
  • Dividir o que temos, independentemente da forma como o façamos. Todos necessitamos da generosidade de cada um. Todos necessitamos dos mesmos bens para sobrevivermos. A necessidade de alimento é transversal a todos os seres humanos. Todos necessitamos de alimento, não há volta a dar ao texto (a menos que aprendamos a viver da exclusivamente da energia do sol, porém, eu não faço ideia como isso se faz). A fotossíntese daria jeito nesta altura. 😉
  • Desenvolver as coisas que amamos fazer, aquilo que realmente, nos acrescenta. 
  • O silêncio gritante do mundo ( que chegou a um ponto de exaustão, e que hoje se reergue proporcionalmente ao nosso "confinamento voluntário ou obrigatório". O mundo grita num eco silencioso há muito, e só agora, lhe demos descanso. Quando voltarmos ao "pseudo-normal" que não nos esqueçamos do que aconteceu, quando o mundo, quase parou. 
  • Desligar a  "porcaria" da televisão umas boas horas por dia, caso contrário facilmente entraremos numa espiral de negatividade. Isso não nos vai ajudar e neste momento. E todos temos o dever, de nos auxiliarmos, começando por nós próprios, em primeiro lugar.
Que tenhamos a capacidade de ser gratos pelo verdadeiro valor dos recursos, dos relacionamentos, dos momentos, da vida. Que esta pandemia seja o início da grande mudança da humanidade e se mantenha, mesmo após a passagem deste pesadelo. 

💚

Petra Silva (Mytic Soul)



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